domingo, 11 de novembro de 2007

Doce melancolia.

Domingo sempre teve um ar melancólico, trânsito calmo, a programação da tv é a pior possível, parte dos estabelecimentos estão fechados em plena tarde; e isso tudo se acentua quando o céu está numa tonalidade cinza, e mesmo quase sem nuvens a luz do sol não chega. Fui acometido por uma epifania; fui visitar meu velho para nosso tradicional almoço dos domingos, que é quase um ritual de leitura de jornal, boa comida, café e discussão sobre futebol; mas que dessa vez tinha como trilha sonora o som dos Smiths. Na volta pra casa, observando aquela paisagem, percebi que meus pensamentos subitamente mudaram, do jogo do Flamengo contra o Santos, para algo diferente que possuía o seguinte trecho de fundo:

I was happy in the haze of a drunken hour
But heaven knows I'm miserable now
I
was looking for a job, and then I found a job
And heaven knows I'm miserable now
In my life
Why do I give valuable time
To
people who don't care if I live or die ?

E essas palavras ficaram martelando, e martelando, e algo foi tomando forma; uma sensação de vazio e sensações de saudade e querer bem. Chegando em casa, sentindo o vento no rosto, e vendo as pessoas sentadas na calçada; lembrei de um tempo em que tudo na minha vida era diferente, amigos, sensações, casa...mas uma coisa, na sua essência, não era diferente: eu e esse peso que carrego comigo, esse desejo de vida; e ele nunca havia sido tão doce, tão contemplativo e crescente; a solidão, a tristeza, todas criando um momento único, um novo pedaço de mim. Pude finalmente entender o que Morissey quis dizer com: But heaven knows I’m miserable now. A força necessaria pra conseguir escolher seu destino, batalhar pelos momentos(levo em consideração aqui, principalmente, a batalha interna, de encarar seus atos de frente, escolher sua solidão, sua tristeza, extrair tudo que esses momentos unicamente humanos proporcionam). Hoje sinto que me tornei mais intimo de Morissey e de Nietzche(quando esse fala: Torna-te quem tu és), e o jogo de futebol na tv com certeza terá um sabor diferente, afinal, meu time também é uma escolha que fiz, e que me orgulho muito por sinal. Quero poder ter o prazer de gritar: Uma vez Flamengo, flamengo até morrer, de me orgulhar do que decidi, do que senti. Ó solidão que soa tão doce, nunca me senti tão bem dentro do meu quarto olhando para o céu escuro, e ouvindo o tal verso ecoando na minha cabeça, um leve sorriso me saltou da face.


Por demais que se tente...
Há só contentamento,
Ao que concerne à mente ,
No afago ao sentimento.